"Não é natural que a vida me traga outro encontro com as emoções naturais. Quase desejo que apareça para ver como sinto dessa segunda vez, depois de ter atravessado toda uma extensa análise da primeira experiência. É possível que sinta menos; é também possível que sinta mais. Se o Destino o der, que o dê. Sobre as emoções tenho curiosidade. Sobre os factos, quaisquer que venham a ser, não tenho curiosidade nenhuma."
Bernardo Soares,
Sr. Bernardo Soares
Sobre as emoções, dou por mim a procurá-las aleatoriamente, tão alienadamente que por vezes nem sei se sou eu que as procuro, ou se me invento outra, como se personagem, para o fazer.
Procuro-as para as ver partir, de poucas coisas na vida tenho tanta certeza. Procuro-as porque as preciso- o meu fascínio pela tragédia transformou as emoções em droga, boas ou más, não me importa, não me preocupa, não me nada- ao encontrá-las, procuro outras: emoções novas que me façam implodir as anteriores, que me façam implodir a mim, para que eu possa renascer, para que me possa reconstruir.
No fundo, acredito como quem quer acreditar, embora saiba que esta esperança vale tanto quanto a crença num deus ateu, que se me obrigar a renascer talvez também o Destino seja obrigado a escrever novas linhas para mim.
Bem sei que se um dia estas palavras ficarem gastas de tanto serem lidas, que é o que desejo, me irão acusar de incoerências, erros crassos, infantis, fáceis. Acredito no Destino mas renuncio a um deus? Pois bem, assim é hoje, que talvez amanhã, no final do dia, as emoções me levem a dizer que o princípio básico da nossa existência é o livre arbírio, que foi a única cisa que trouxemos connosco quando Deus nos largou aqui, à nossa sorte.
Percebem? Emoções. Emoções só pelo sentir, quero lá saber como se perpetuam, se se perpetuam; que me importam a mim verdades absolutas, dados adquiridos, certezas perenes? Emoção pela emoção, sentir pelo sentir, recomeçar por recomeçar.
Emoções para contrariar este tédio, que eu não consigo, não consigo de forma nenhuma, alimentar aquilo que sou apenas com este fumo branco e a parede negra. Emoções, mesmo que elas me tragam , afinal, novamente aqui, as ste cigarro e a este corpo largado no chão que antes era vermelho e agora é branco.
Emoções, vividas e reais, inventadas e tão reais quanto quaisquer outras.
Dói. Claro que dói passar pelos sorrisos como quem passa pela vida- é demasiado fugaz, demasiado rápido, "só quando dói é devagar".
Dói. Dói voltar aqui sozinha, mas é à solidão que pertenço- toda e qualquer emoção para além desta é um presente, uma dádiva, algo que não me deixa adiar o coração.
Tenho emoções e cigarros, deixem-me estar. Tenho sons e memórias. Tenho café e lágrimas. Deixem-me estar.
E não me digam que esta ferida vai sarar, nem que esta dor vai passar. Deixem-me estar, descansar.
Estou demasiado cansada para sair agora e procurar por mais vertigens.